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  • Paula Braga

Carlos Zilio e aquele jovem de brilhante futuro








Depois de quatro décadas, a série de fotografias de Carlos Zílio “Para um jovem de brilhante futuro”, de 1974, resgata-nos do deserto de signos. Como se fossem palavras, que trazidas à fala colaboram para a compreensão do atual sentimento difuso de mal-estar, essas imagens nos ajudam a elaborar uma dúvida: há futuro?

A série de fotos em preto e branco constrói uma narrativa sobre o cotidiano de um jovem executivo da década de 1970. A câmera registra a chegada do rapaz a um estacionamento, seus passos na rua, a entrada no prédio de escritórios e cenas de sua rotina de trabalho, sempre acompanhado de uma valise de couro. Quando aberta, a valise mostra seu conteúdo oculto, de pregos perfurantes.

Além da sequência de fotos e da própria valise como objeto, há duas variantes da obra, uma em forma de cartão-postal e outra como reprodução xerográfica, dois suportes que, nos anos da ditadura, circularam driblando a censura às artes. Para ambos, Zílio selecionou a imagem em que o jovem executivo fala ao telefone. Uma linha diagonal conduz o olhar do espectador, desde a valise, aberta no primeiro plano, até os lustrosos sapatos do executivo, apoiados em cima da mesa. A mão direita do rapaz repete o inequívoco gesto, disseminado na história da arte, de apontar para cima, para um poder superior, que aqui talvez seja a entidade metafísica conhecida pelo nome de mercado, cuja mão invisível traça o futuro. Vale lembrar as palavras de Giorgio Agamben:


O capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas - assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo.



Seguindo essa leitura do culto ao dinheiro, os pregos da valise anunciam a disposição a aceitar qualquer sacrifício, não necessariamente pessoal, mas social, em prol do futuro de salvação econômica. Afinal, a cartilha do crescimento econômico prega que alguém tem que fazer o sacrifício, provavelmente não o rapaz de brilhante futuro, mas o personagem que aparece em uma outra obra fotográfica de Carlos Zílio, também de 1974, na qual o artista fotografou os pés do anônimo do necrotério, em um escorço acentuado, que apaga o corpo no fundo preto, focando as solas dos pés, muito limpas, e a etiqueta pendurada no dedão: “identidade ignorada”.

A obra “Para um jovem de brilhante futuro” foi concebida a partir da surpresa de Zílio com a euforia da sociedade em relação ao chamado milagre econômico. Entre 1968 e 1974, o PIB brasileiro cresceu, em média, mais de 11% ao ano, um expressivo ganho econômico. No entanto, o que o Brasil perdeu no mesmo período não pode ser tão simplesmente quantificado. Segundo o Plano Nacional de Direitos Humanos, de 2010, e usando também números do relatório da Comissão da Verdade, de 2014, estima-se que por volta de 50 mil brasileiros foram presos políticos durante a ditadura militar, dos quais cerca de 20 mil foram vítimas de tortura, executada por 377 agentes do estado, já identificados mas não condenados – um deles, lamentavelmente, homenageado em 2019 pelo presidente da república. Foram assasinadas ou continuam desaparecidas cerca de 434 vítimas da ditadura militar.

Essas estimativas dão apenas uma parca noção da barbárie que acompanhou o crescimento econômico do Brasil nos anos 1970. Daí, talvez, o personagem das fotografias de Zílio estar sempre com o rosto escondido, de costas para a câmera. As fotos registram um retrato genérico daquele que aderiu à banalidade do mote de que seria preciso, primeiro, fazer crescer o bolo, a qualquer custo, para depois, um dia, quem sabe, dividir o bolo.

É lastimável que o intelecto humano não lide bem com o processamento e entendimento de realidades simultâneas e, portanto, não consiga conceber com facilidade duas imagens sobrepostas, por exemplo, com uma camada de signos do crescimento econômico e uma camada de signos da destruição da dignidade humana, dois processos que aconteceram ao mesmo tempo nos anos 1970. Ao apresentar a valise aberta com pregos nas fotos do jovem executivo, Zílio experimenta a possibilidade de registrar as duas realidades simultaneamente. Dá-nos, assim, uma representação do impasse que o neoliberalismo nos impõe, a respeito do custo humano e planetário da contínua expansão econômica para poucos.

Nas fotografias de “Para um jovem de brilhante futuro”, é o próprio Carlos Zílio quem atua como jovem executivo para a câmera do fotógrafo Paulo Rubens Fonseca, sempre ao lado da valise, peça fundamental no aparato visual corporativo dos anos 1970. Em todas as fotos, o jovem executivo e a valise formam o assunto principal, fundem-se a ponto de constituírem um único protagonista da narrativa. Na rua, o jovem caminha segurando a maleta, enquanto a câmera fotográfica os segue, atrás do destino dessa dupla de futuro. Outros transeuntes estão em mangas de camisa e seguram pacotes. Munido de seus atributos de distinção – a valise e o terno --, o jovem caminha na certeza de que o brilhante futuro lhe pertence por direito divino-financista. Um carro esporte “made in Brazil” arremata o sonho de consumo do homem-mala. Por fim, ele sobe degraus rumo ao tal futuro, que as outras fotografias, já dentro do prédio, revelam ser cravejado de pregos.

É incerto se a valise carrega realmente alguma possibilidade de um porvir de bonança financeira individual. Fechada, ela confere ao rapaz das fotos a aparência de afluência econômica, e no entanto, existiu em versões para todos os bolsos, assim como os ternos baratos da Ducal vestiram muitos jovens de brilhante futuro. Como signo de consumo e distinção social, o carro esporte impressiona, mas em breve ele parecerá insuficiente para a realização do desejo, gerando um desconforto existencial amorfo, que justifica cravejar-se de pregos por mais dinheiro. Afinal, analisar o desconforto é mais dolorido do que acreditar na propaganda do governo Médici: “Até 1964 o Brasil era apenas o país do futuro. E então o futuro chegou.”

A propaganda dos anos de chumbo comprova que não há ineditismo na instrumentalização da ideia de futuro, atualmente praticada, por exemplo, no projeto de desmonte da universidade pública no Brasil, batizado com o nome de “Future-se”. Carlos Zílio, que foi professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ironizou, nas fotografias e na valise, a ideia de um futuro construído a partir do individualismo e do culto ao mercado. Salvo os elementos de época – roupas, cortes de cabelo, a própria valise – as fotografias de Zílio continuam atualíssimas, o que é angustiante.

Permanência de uma ausência, a fotografia é a arte que manuseia o tempo, que fixa com a imagem o instante que já passou. No entanto, essas fotos de Zílio parecem ser de instantes que não foram sucedidos pelo instante seguinte. Paralisamos, como se o país tivesse sido petrificado pelo olhar de Medusa da câmera.

Presos em um impasse de falta de expectativa de futuro e na miséria da limitação intelectual impeditiva da compreensão da simultaneidade – que atingiu um paroxismo em 2019 –, a obra “Para um jovem de brilhante futuro” nos sugere outra direção: agir, com a câmera na mão, para que, no futuro, algum jovem possa considerar que vive em um país de brilhante passado. Ou, ao menos, um passado menos vergonhoso do que o nosso. É preciso fotografar a luta.


(Publicado na Revista Zum, #17, outubro/2019)

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