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  • Paula Braga

Sons que Escapam - Curadoria para Sesc Santo André - 2020


Vídeo: Gabriel Villas-Bôas. Texto e narração: Paula Braga


Em 1951, um músico constatou que o silêncio não existe. Ao entrar na câmera anecóica da universidade de Harvard, um cubículo totalmente vedado à entrada de som, o compositor John Cage percebeu que ainda ouvia um som constante agudo e uma batida rítmica grave. Consultando o engenheiro que construíra a câmera à prova de som, descobriu que o som agudo que escutara era o barulho de seu próprio sistema nervoso e que o retumbar grave era seu sistema circulatório.

Um ano depois, John Cage compôs a peça 4’33’’, uma obra musical com três movimentos, e de duração total de quatro minutos e trinta eE três segundos. Para executá-la, um músico deve permenecer em silêncio durante este tempo. As execuções mais comuns são feitas por pianistas, que sentam-se na frente do instrumento, e cronometram o tempo, durante o qual sons da plateia – as tosses, os murmúrios, o barulho da fricção do couro dos assentos do teatro – vêm à tona. Para John Cage, os sons que existem ao nosso redor são música, tanto quanto uma sonata para violinos.

Não há como escrever uma partitura para os ruídos que emergem do silêncio com a notação musical convencional. É preciso criar uma nova linguagem. John Cage colecionou exemplos de partituras para peças de percussão, reunidas em seu livro Notations. Cada página é um desenho que tenta descrever com linhas e pontos alguns gestos, pausas, retornos e dinâmicas.

É interessante notar que a dança, ao contrário da música, nunca se ateve a uma convenção de notação. As coreografias são registradas de formas muito variadas, algumas usando a figura humana simplificada a palitos, desenhada por cima de pautas musicais. Enquanto lecionava no Black Mountain College, John Cage desenvolveu peças em parceria com o coreógrafo Merce Cunningham, para quem a dança deveria abarcar gestos cotidianos, como andar ou sentar. Assim como Cage valorizou os ruídos singelos, Cunningham levou para o palco o movimento do dia-a-dia. Juntos, organizaram eventos performáticos que incluíam teatro, dança, música, declamação de poesia… e um cachorro latindo e correndo atrás dos performers por entre as cadeiras da plateia.

Vivemos no meio da gritaria das redes sociais. Todos falam, ao mesmo tempo, em volume cada vez mais alto, e nesse contexto as obras e pensamentos de John Cage adquirem um sentido ético e político: como escutar os sons mais sutis, os discursos que são pouco amplificados, porém importantes? Como proteger os ouvidos dos berros que abafam outros discursos?

As obras reunidas na exposição “Sons que Escapam” salientam a importância da percepção dos sons do silêncio. Sandra Cinto, Paulo Nenflidio, Bruno Kurru, Renan Marcondes e Thomaz Rosa remetem ao silêncio recheado de potência, aos barulhos do mundo, ruídos fisiológicos e ruídos psíquicos, que desaguam em ações e transformações.



Artistas participantes:


O próprio ato de criar conduz Bruno Kurru ao processo de introspecção e auto-conhecimento, de mergulho controlado em uma mente que, num modelo de anatomia não-ocidental, é conectada ao espírito.Signos de iluminação mental, como sol, são constantes nos trabalhos de Kurru, assim como o céu e cabeças humanas. Como na prática do yôga, na qual a repetição de posturas conduz o praticante ao controle e conhecimento de sua mente, olhos, bocas ou pés são repetidamente pintados na prática artística diária de Bruno Kurru. A repetição de padrões geométricos sugere que as frases escritas nas pinturas sejam também passíveis de repetição, como mantras. No entanto, a ascese como meta não despreza o corpo. Kurru presta atenção aos movimentos motores, à repetição do caminhar, à sutileza da mudança naquilo que se repete. Cultura urbana e meios tecnológicos integram-se na arte de Kurru com uma tradição filosófica milenar para alcançar uma ascese terrena: a vida como deve ser vivida na plenitude do corpo sensível.


Em 4,33x, Paulo Nenflidio constrói um pêndulo que quase toca um copo cheio de água. A leve vibração da proximidade do pêndulo causa ondas na superfície da água. Se o toque se consumar, haverá o barulho do estilhaçar do vidro e do derramamento da água. Como se fosse uma máquina de gerar perigos, o pêndulo ameaça percutir o copo, o que remete às peças de John Cage para piano preparado. Nessas peças, Cage colocou vidros e peças de metal nas cordas de um piano de cauda, e assim o pianista, ao pressionar as teclas do piano, percute esse materiais, o que gera uma textura sonora inesperada e muitas vezes repudiada por ouvidos desacostumados à variedade dos sons. As teclas do piano preparado, arranham, desconfortam. Esse tipo de referência táctil para o som ganha forma nas peças da série Granulometria, nas quais Nenflidio expõe as várias cores, gramaturas e tamanhos dos grãos da madeira. Se fossem tocadas com as mãos, remeteriam a sons tocados por diferentes instrumentos. Mas a peça que realmente se oferece ao toque é a Som do Silêncio. Trata-se de uma placa de madeira na qual Nenflidio gravou, em baixo relevo, a onda sonora da sua voz falando a palavra “silêncio,” corroborando, com Cage, que o silêncio tem som.


A performance valoriza mais o processo do que qualquer produto final da criação artística, e funda-se na potência do corpo, naquilo que o corpo pode fornecer de conhecimento sobre o mundo, e naquilo que as ações do corpo revelam sobre o corpo e sobre sua potência. Artistas da performance, como Renan Marcondes, testam os limites do corpo, ou tentam libertá-lo de estereótipos de aparência ou pudores de comportamento. Na obra Timeline, Renan Marcondes instala, na parede, retratos dos performers mais famosos da história da arte, de forma que seus olhares formem uma linha reta, de 10 metros de comprimento. Tudo varia nos retratos, menos a altura da linha dos olhos, que quer encontrar o olhar do espectador, perturbando-o e incentivando-o a ouvir o discurso do corpo. Durante a abertura da exposição “Sons que Escapam”, Marcondes apresentará a peça Das Tarefas do Artista (2), na qual um performer gira, fica tonto, pinta algumas manchas de tinta no espaço, em uma escrita decorrente da interação do corpo, seus dircursos e o acaso.


A obra Caixa de Silêncio, de Sandra Cinto, é composta por três caixas concêntricas, uma dentro da outra. No centro da caixa menor, vemos um caderno aberto, com as páginas em branco, e uma concha. O encontro com essa obra é bonito e doloroso, porque é delicado, porém inacessível. Nenhum som entra nem sai dessas caixas, que emanam a sutileza preciosa da quietude indevassável. Assim, pela distância e inacessibilidade, os sons fechados pelo vidro tornam-se respeitosos e intrigantes. Que sussurros maravilhosos a concha poderia soprar no ouvido de quem pudesse pegá-la! E que maravilhosos pensamentos esses segredos suscitariam, para serem anotados no caderno. Para trazer tanta beleza para fora, só o que podemos fazer é, encantados com a obra, procurar a raridade do silêncio interior em nós mesmos, fazer a pausa, domar a mania de movimento barulhento, aquietar, para perceber os sons de nossas conchas reverberadoras de sutis ruídos psíquicos, que podem ser anotados, como uma escrita, com uma linha de pensamentos.


As pinturas de Thomaz Rosa parecem criar movimentos, como se registrassem idas e vindas, falas e barulhos coloridos. São instaladas na parede de forma a constituírem uma composição maior, na qual o todo tem a forma de cada uma de suas partes, como um texto é feito de parágrafos, que são feitos de frases. Como o artista declara, suas pinturas constroem um alfabeto imagético, que nesta exposição aproxima-se muito dos signos da notação musical, como nas partituras para percussão reunidas por John Cage no livro Notations. A própria dimensão das obras selecionadas remetem à página, ao rascunho, à escrita e ao exercício escolar de geometria no papel quadriculado. Nas telas pintadas a óleo, há interferências de riscos de lápis e fitas adesivas, ao lado do uso gráfico da linha e das cores. Lúdicos e espontâneos, são trabalhos que incitam mutabilidade, convidam o corpo para uma dança de giros, para um concerto musical, transformando-nos em instrumentos e instrumentistas de nossos próprios corpos.




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