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  • Paula Braga

Reencantar: as fotos de Gabriel Villas-Bôas


A paisagem é uma invenção que no trabalho de Gabriel Villas-Bôas se reatualiza em encantamento. Nas fotografias aéreas e nos registros dos povos que mantiveram uma relação de respeito amoroso com a natureza, abre-se uma das condições para evitar o fim do mundo: reverenciar a Terra.

Desde o século XV a invenção que chamamos de paisagem almejou ordenar o mundo para dominá-lo. Passou-se a considerar como representação fiel da natureza o recorte semelhante à vista que se tem de uma janela, separando assim natureza e espectador por uma vidraça invisível. Do lado de fora, ficou aquilo que deveria ser conquistado pela inteligência humana. Se lembrarmos que a palavra conquista tem três sentidos diferentes – militar, amoroso e realizador – lamentaremos o mau uso feito da linguagem pictórica. A inteligência humana poderia ter inventado a paisagem para realizar uma relação amorosa com a natureza, mas usou a técnica da perspectiva linear, precursora da fotografia, como estratégia de poder, afastando-se da natureza para perfurá-la e arrancar à força o que ela amorosamente ofereceria como dádiva. Ao mesmo tempo em que o Renascimento propunha a matematização do espaço, o mar azul e imenso foi pensado como rota para a destruição dos povos que amavam as montanhas, as praias, as árvores, que se compreendiam integrados à terra, emaranhados animicamente a tudo o que fosse vivo. E, de fato, tudo na natureza era vivo e assim representado nos mitos: os animais falavam, as montanhas guardavam espíritos, e a beleza da vegetação era compreendida como misteriosa, escantada, generosa.

As fotografias aéreas de Villas-Bôas produzem o arrebatamento necessário para a reinvenção da paisagem a partir da reverência à beleza da natureza. O resultado é um belo complexo, tão excessivo que nos faz oscilar entre o deleite e a humildade. O deleite vem das cores que contrastam o verde das copas de árvores, o azul do mar, o vermelho das falésias, o marrom dos rios. É como se toda essa maravilha estivesse ali para agradar olhos humanos. Mas logo vem o antídoto a essa presunção: como é grande, como é incompreensível, como é superior ao ser humano. São, portanto, fotografias que nos permitem exercitar a integração entre beleza e assombro, opondo-se à separação entre belo e sublime estabelecida na estética moderna. A distância que a câmera do drone estabelece não é a separação arrogante da vidraça renascentista. É a distância necessária ao respeito.

Na série Pinturas, as manchas e formas proveem à imaginação a liberdade do voo solto, ao mesmo tempo em que o entendimento tenta decifrar uma geografia. A esse esquema kantiano de fruição do belo as fotografias aéreas adicionam o susto da altura e da imensidão inexplicável: amar a natureza não é amor fácil pois exige enfrentar o desamparo de não compreender e de ser muito pequeno em comparação com o que a foto indica. Dentre as vistas aéreas propiciadas pelo voo do drone, Gabriel Villas-Bôas interessa-se pelo registro de círculos naturais, como o lago que recebe o jorro da cachoeira, e círculos construídos pelo ser humano, como o cultivo de um campo verde que preservou a redondeza púrpura de uma copa de árvore. Nesses registros aéreos, a sensualidade escorre sinuosa como o curso dos rios que cortam vales verdes, uma sensualidade que lubrifica o metal do drone integrando a tecnologia a um projeto de amor.


A câmera acoplada ao drone enxerga as sombras das coisas que, sendo projeções dos corpos causadas pela luz, são irmãs da própria fotografia. A sombra é o jogo do sol, brincando de esticar miudezas, atestando a presença do que seria difícil de ver lá do alto. E há outras revelações. É surpreendente ver que há um campo de futebol com o círculo central bem desenhado no meio de uma floresta fechada e em seguida saber pelo fotógrafo que o povo Kamaiurá acredita que as almas dos mortos vivem enfeitadas na aldeia celestial e lá jogam bola. Imagino a câmera entre as nuvens, tentando registrar as sombras e recebendo o drible das almas que riem tanto quanto as crianças da aldeia Yawalapiti.



Há vários anos, Gabriel Villas-Bôas fotografa os povos do Alto Xingú e a série sobre as lutas dos guerreiros da região durante o ritual do Kuarup registra o respeito mútuo entre os fortes. A luta encerra um período de luto com o vigor dos corpos adornados, dignos dos filhos de uma natureza tão viva, tão pulsante. O drone, tecnologia associada à vigilância, segura a câmera guiada por Gabriel Villas-Bôas para nos contar o que os povos originários sempre souberam: é preciso salvaguardar a natureza encantada.


Paula Braga, 2021


Referências:

Sebastião, G. (2021). A paisagem como forma simbólica: uma análise da teoria da paisagem de Anne Cauquelin. ARS (São Paulo), 19(41), 492-521.

Han, Byung-Chul. A Salvação do Belo. Petropolis: Vozes, 2019.

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