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  • Paula Braga

Quasi-corpus de Tony Cragg


Demorou muito, mas finalmente a obra do artista britânico Tony Cragg recebe uma grande exposição institucional itinerante no Brasil. Entre 2006 e 2007, o artista esteve na América Latina com grandes mostras na Argentina (Centro Cultural Recoleta, 2006), Chile (MAVI – Museo de Arte Visuales, 2007) e Peru (MALI - Museo de Arte de Lima, 2007) mas, no Brasil, o contato direto do público com a obra de Cragg foi esparso. Temos agora a chance de estar frente a frente com esses seres raros colocados no mundo por Cragg para, mais do que admirar a forma das esculturas, mudarmos com elas.

A arte contemporânea brasileira tem sua fundação na geração de artistas que, na virada da década de 1950 para 1960, defenderam a ideia de que a obra de arte seja “como um quasi-corpus, um ser,” conforme escrito no Manifesto Neoconcreto, de 1959. É certo que as primeiras produções brasileiras que deram este estatuto à obra eram estruturalmente geométricas, como os Bichos de Lygia Clark ou os Relevos Espaciais de Hélio Oiticica, afinal a matriz do concretismo havia sido transgredida, mas não eliminada. No entanto, colocando-os em diálogo com a produção de Tony Cragg, para além da diferença entre ângulos e organicidade, há a meta comum da transformação do espectador pelo contato com a obra. Tanto a obra de Cragg quanto as produções de artistas brasileiros do início dos anos 1960 instalam-se confortavelmente na categoria de “símile de organismos vivos” proposta pelo manifesto de 1959, instaurando a relação do espectador com a obra a partir da capacidade da arte de produzir novos pensamentos e, consequentemente, novas possibilidades de relação com o mundo.

No Brasil, a busca pela transformação das subjetividades focou o descondicionamento dos comportamentos, seguindo o caminho da participação, da arte ambiental, dos materiais efêmeros e da arte enredada nos gestos cotidianos. Em Tony Cragg, a matéria de que é feita a obra é indispensável e a transformação é disparada por um encontro sensorial entre o espectador e a materialidade da obra. O corpo das esculturas têm sempre algo de prazerosamente familiar, ainda que irreconhecível, relativo a estruturas biológicas como conchas, cristais, corais, até quando incluem referências explicitamente industriais, como em Sinbad, de 2000, cuja estrutura baseia-se na repetição de giros da forma utilitária de um vaso. As obras dessa série, chamada Early Forms, são esculturas que se arrastam pelo chão como se fossem seres que ainda têm pela frente algumas etapas a cumprir na cadeia de evolução biológica e, sugerindo um dinamismo mecânico de rotações de um elemento em torno de um eixo bem definido, atingem o inusitado paradoxo do industrial invertebrado. Estar diante de uma forma paradoxal tão concreta quanto Upright, de 2016, aumenta o campo dos possíveis.

Neste encontro, a relação estética entre obra e espectador produz percepções novas, que se inscrevem no repertório sensorial de quem está diante da grandeza silenciosa de uma escultura como Mixed Feelings, de 2012. O eixo vertical, em torno do qual a matéria gira, é suavemente curvado, como se o topo da obra se inclinasse para observar quem se aproxima para um diálogo mutuamente curioso que, no espectador, se dará no campo das sensações físicas. Andando em torno das esculturas de Tony Cragg, que são surpreendentes a cada movimento do espectador, fica-se em dúvida sobre quem se mexeu, pois dobras e vazios aparecem, em novidade constante, trazendo-nos o susto de nossa própria limitação intelectual: é impossível memorizar e reconhecer todas as partes destes corpos.

Nas operações mentais humanas, o passo seguinte ao contato sensorial com algo nunca antes experimentado é representar a percepção sensória em conceitos que necessitam da linguagem. Sem o passo da representação, nossa experiência de vida seria uma imersão amorfa na massa de sensações. A partir da linguagem, torna-se possível articular pensamentos que, contando com mais um signo, pensará o que antes não era pensável. Portanto, a operação de contato sensorial com o mundo é o que constitui a base da experiência compartilhada com os outros, a troca com o que é exterior ao próprio corpo e à própria mente. Este mundo que compartihamos e sobre o qual pensamos é justamente aquilo que podemos conceber com as palavras disponíveis, ou seja, o mundo que temos condições de conhecer é definido pela linguagem. Expandir as experiências sensoriais acarreta a expansão das representações linguísticas e, na sequência, a expansão das possibilidades de pensamento. O mundo cresce. Daí a declaração de Tony Cragg que melhor define sua obra: “nós somos o que somos, pensamos o que pensamos e sentimos o que sentimos em resposta à nossa experiência com materiais.”

Ao inventar suas esculturas, Cragg instiga uma dupla movimentação ontológica: um corpo que antes não existia passa a estar no mundo com sua forma e matéria, ao mesmo tempo em que os corpos viventes e falantes transformam-se. Ao colocar no mundo formas novas, o artista recorre à natureza para imitar-lhe a potência geradora, a natureza naturante, processo criador que dá a ser as coisas do mundo. Talvez isso explique a harmoniosa convivência de suas grandes esculturas com o entorno de parques e jardins.

A busca por experiências transformadoras é incessante na carreira de Tony Cragg, um artista com energia para viajar com suas exposições pelo mundo todo, produzir simultaneamente dezenas de peças em seus ateliês na Alemanha e na Suécia, desenvolver uma admirável carreira acadêmica em universidades de Berlim e Dusseldorf, lidar com detalhes de curadoria de suas exposições, organizar mostras de outros artistas e dirigir o Parque de Esculturas Waldfrieden, uma iniciativa da Cragg Foundation.

A exposição Rare Species vem ao Brasil em um momento urgente quando, mais do que nunca, faz-se necessário receber aqui os seres expansores do pensamento esculpidos por Tony Cragg.

Paula Braga, 2019.

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