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  • Paula Braga

Regina Johas: jardins circulares

A fotografia aponta para o passado. Pode-se entender a relação da fotografia com o passado como um registro de perda, de algo que não existe mais, ou como um índice de vida, de uma pulsação a ser preservada. Ou a fotogr

afia registra o que passou -- a criança que já virou adolescente, o salto da baleia que tornou a mergulhar -- ou ela congela o passado, para que um dia ele seja quiça reativado. A criança ainda está naquele adolescente, e o salto continua na baleia. A imagem do passado está na imagem do presente.


E a imagem do presente? Estaria já na imagem do passado? A erva daninha que cresce no jardim já estava incubada no meio das flores? O jardim já continha no passado a semente dessa erva-daninha que se manifesta no presente? Ou, colocando a questão de forma menos biológica, a história futura, contada em imagens, do jardim perfeito, já não contém a inevitável erva-daninha? O presente está no passado e o passado está no presente. A erva-daninha presente está no passado de jardim perfeito e o passado de jardim perfeito está no presente do jardim invadido. A imagem atual, do presente, coexiste com a imagem virtual, seu passado contemporâneo[1].


A exposição Jardins Circulares de Regina Johas rodopia e se estremece com questões da fotografia como memória de um tempo que se desdobra em muitos tempos simultâneos, fotografia como imagem-cristal, na definição de Deleuze, aquela que é o ponto de indiscernibilidade da imagem atual e virtual[2].

A série de 7 fotografias intitulada Jardins Circulares apresenta imagens espelhadas de um jardim afogado por mato. Os arbustos que já foram bem podados e os canteiros que em algum tempo estiveram limpos apresentam-se tragados por ervas-daninhas. O espelhamento cristaliza a ideia deleuziana do duplo atual e virtual da imagem. Não há cor nessas fotografias cinzas, que tendem ao preto, como se o tempo não-linear fosse um espaço vizinho à memória, ambos parte de uma região pouco iluminada da nossa experiência. Experiência com a imagem-cristal, na qual passado e presente ainda não se desgrudaram, as fotografias de Jardins Circulares são imagens de não-descolamento, imagens da semente do presente no passado e da ativação do passado no presente. Na simetria siamesa dessas imagens, tem-se o instante constante em que o tempo desdobra-se em passado e presente, como que refratado por um cristal.


As ervas-daninhas aparecem também nas duas fotografias da série Pós-paisagem, e aqui estão evidenciadas por um texto sobreposto à imagem, que cita nomes dos matos que tremem durante o acesso de febre de Argemiro, personagem de Guimarães Rosa no conto Sarapalha. Argemiro vê a natureza oscilar quando é ele quem treme de malária ao mesmo tempo em que se deleita com a beleza do frêmito da erva-de-sapo, da erva-de-anum, dos ramos da vassourinha e do galho da mamona.


Vida é febre da matéria, como diz a citação que Regina Johas colheu em Thomas Mann para a série de gravuras Luminosi", pequenas pontas-secas com excertos também de Guimarães Rosa e Anne Cauquelin, frases que aparecem duas vezes, espelhadas no papel. Na gravura em metal, a imagem final é naturalmente espelhada, então nessa obra de Regina Johas o que lemos na direção convencional foi na verdade escrito de trás para frente. E vice-versa. Esse jogo com espelhamentos cria um ambiente de vertigem na video-instalação que projeta num círculo o conto Sarapalha inteiro, frase por frase. A imagem projetada é rebatida duas vezes por espelhos instalados na sala, que giram, deixando-nos num estado de deliciosa tontura, como a que Argemiro experimenta durante a febre.


A exposição apresenta ainda um álbum de fotografias do céu, Ut Pictura Poiesis, cujas páginas vão aos poucos construindo a frase que pode ser traduzida como pintura como poesia, poesia como pintura. De novo, o espelho, o palíndromo de conceitos. Presente como passado e passado como presente. Pintura como poesia e poesia como pintura. Fotografia como gravura e gravura como fotografia. Fotografia como perda e fotografia como reencontro. Imagem-cristal, febre de vida.


[1] Gilles Deleuze, A imagem tempo, São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 99.

[2] Ibid., p. 103





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